Meu único amigo da rua se foi…

Na madrugada de Domingo para Segunda-Feira eu desliguei o computador, passei os quinhentos mil cremes no rosto, e deitei em minha cama para dormir.

Quando estava quase adormecendo comecei a ouvir vozes na casa ao lado. No inicio não consegui entender direito o que era, até que começou a ficar mais nítido:

Nããão…. Me ajudaaaaa, por favor, não, me ajuda… – gritou a voz feminina, que vinha da casa ao lado.

Eu fiquei assustada, será que tinha entrado algum ladrão na casa ao lado? Eu deveria ir até lá? Eu deveria chamar a policia?

Eu ouvi outras vozes, e entre elas, alguém acalmando a moça que estava gritando. Até que alguém ligou o carro, abriram o portão e saíram da casa.

Imaginei que se fosse algum ladrão não teriam tentado acalmar a moça, e fiquei um pouco mais tranqüila com isso. Não havia nada que eu pudesse fazer, afinal, eles tinham saído da casa. Fui dormir pensando nisso.

No dia seguinte, quando acordei perguntei a minha mãe se havia acontecido algo na casa ao lado, e ela não soube me responder. Até que meu pai chega na sala e diz: “ O vizinho faleceu esta noite.”

Ele teve um infarto e faleceu dentro do quarto dele, e a moça que gritava era a filha  que o encontrou morto.

Me mudei para esta em 1997, e na rua não tinham pessoas da minha idade, de modo que nunca fiz amizade com ninguém (O fato de a rua ser dominada por transportadoras e industrias colaborou para este pequeno ser anti-social). Mas logo que me mudei um senhorzinho perguntou meu nome, e desde então sempre que me via dizia: Boa Tarde Juliana, moça bonita, bom passeio.

Mesmo depois de 12 anos, não importava o horário, o dia da semana, ele sempre me desejava um “bom passeio” e sempre fazia questão de me chamar de “moça bonita”. Muitas vezes eu estava indo trabalhar, e imaginei que para ele, a vida deveria ser um eterno passeio.

Ele tinha Mal de Alzheimer, mas nunca esquecia meu nome.

Ele esquecia o caminho de volta para casa, mas nunca esquecia meu nome.

E eu percebi que eu nunca soube o nome dele. Ele era apenas o velhinho que sempre me desejava um bom passeio.

Espero que agora, a única pessoa da rua que me cumprimentou durante anos, esteja tendo um bom passeio lá em cima.

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One Response to Meu único amigo da rua se foi…

  1. poxa, triste e comovente…

    é estranho as vezes como não conheçemos as pessoas como deveríamos…

    as vezes é so perguntar…

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